quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Caras - parte I

Uma das estratégias do colonialismo elaboradas como as melhores tácticas do Mourinho, foi a de deslocar as populações, dispersando as tribos e criando um espírito de território comum.
Laura Cassenge. Nascida nas cubatas das terras do fim do mundo no Cuando-Cubango, órfã que foi parar ao planalto do Huambo pelas mãos bondosas das religiosas do coração imaculado que preparavam as crianças africanas a “servir” como domésticas nas casas de tijolo e cobertas de telha. Como no Huambo não havia Padres Narcisos conservou o seu nome de nascimento. Sua irmã Tina, por exemplo, virou Penelope nas mãos da Madre Superiora da missão, uma espanhola tão profissional que acrescentou Cruz ao apelido da pequena.
Laura era uma menina quase mulher que quando nos abria a porta esbarrávamos os olhos nuns pés, as pernas longas, o ventre e depois mais nada. Um par de seios enormes me impedia, nos meus 12 anos e metro e meio de cambuta(1), de ver sua cara. Uma gazela.
As hormonas do princípio da minha puberdade encontravam-se através de cheiros, de formas, de risinhos; timidezes e desejos com as hormonas do fim da sua adolescência, pelos cantos da casa da Tia Cuca no Lubango que a tinha ido buscar ao planalto e a mim a Luanda, pois o primeiro período escolar na capital foi uma desgraça a nível de resultados e comportamento.
Chegou o mês de Março e as férias, de verão como chamávamos. A Cuca decidiu que íamos a Luanda visitar a Avó Pequenina. Fomos buscar o nosso Avô Manel ao Hotel Novo e a Laura também veio porque nunca tinha vista o mar, a Cuca prometera lho mostrar. E lá partimos os quatro no Mazda 1200 vermelho que fazia a sua 1ª grande viagem, ainda sem cordas e arames por todo o lado atando bancos, portas e outros que se foram soltando com o desenrolar de suas aventuras e peripécias que foram inúmeras.
É uma viagem longa de mil kilómetros desde o sul, passando pelo Huambo, de rectas a perder de vista com lombas que sobem e descem e na época das chuvas alagam impedindo o tráfego e cujo perigo maior é a travessia de animais de grande porte, causa de tantos acidentes mortais. Passámos a Cela e a Quibola no Cuanza Sul e quando avistámos a barragem de Cambambe e o Rio Cuanza dirigindo-se para a barra já nos julgávamos quase em casa. Parámos no Dondo para refrescar e depois entre o Cuanza Norte, o Bengo e Luanda os sinais de trânsito ao lado da estrada pareciam o passe-vite com que a Laura passava os legumes, alvos de balas cheios de buracos que alguns nem se podia ler a sinalização - são os caçadores, mentia o Avô - Oh Avô, sabemos que são os turras, contrariava a Cuca enquanto no seu silêncio a Laura pelo horizonte corria o olhar pelo algodão como se todo o futuro lhe pertencesse.

(1) Cambuta - puto, pequeno

NA

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