quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

As Luandas, a Velha, a Sul e os Musseques Ou Um Dragão de Três Cabeças - parte I



Luanda também está doente, mas a sua doença é diferente, é uma cidade feita de antíteses, cheira mal todos os dias, nuns sítios mais do que noutros. Tem um saneamento básico obsoleto, que vomita para o que resta dos passeios, que se assemelham à superfície lunar, mas com crateras cheias de imundice e esgotos estagnados e correntes. Andar a pé na cidade, só de olhos postos no chão… excepção seja feita para algumas ruas, reabilitadas por conta da sua frequência vip.
Agora, vejo com outros olhos a cidade, vejo com olhos de todos os dias, vejo de dentro dela, vejo uma cidade suja e decadente e simultaneamente, vibrante de reconstrução, e do mesmo modo que me repele, me  atrai, mas não sei porquê, não consigo perceber porquê!
O ruído de fundo é permanentemente acima dos decibéis recomendados pela OMS. Parece que a cidade tem a voz de um louco, rouco de tanto gritar. Leio jornais todos os dias, ontem um deles denunciava a poluição sonora como sendo um problema de fundo da cidade. Sendo que as maiores causas identificadas da poluição sonora são os táxis, que instalam no interior dos veículos, maioritariamente Toyotas Hiace, mais conhecidos pelos Iáces, aparelhagens de alta potência, competindo uns com os outros, transformando  o som no seu  marketing. As festas que ocorrem regularmente até altas horas da madrugada, em quintais, igrejas e pátios da cidade. Tenho adormecido às sextas e sábados, com estes sons de África, quais reminiscências de batuques ancestrais, que me agitam o sono, como um convite divino à entrega do corpo à sensualidade da dança.
É Cacimbo, o céu está quase sempre cinzento, não chove, toneladas de pó de terra  pairam ameaçadoras sobre a cidade, criam um manto de permanente nevoeiro que se mistura com  emissões de CO2 descontroladamente absurdas. É  veneno puro a matar devagarinho, os pulmões, os olhos, a pele, os cabelos.
Vêem-se verdadeiros batalhões, de homens e mulheres a varrer as ruas da cidade, de máscaras e cabeças tapadas, assemelhando-se a brigadas anti veneno. São como uma manada de elefantes a passar na savana, deixam uma densa nuvem de pó no seu  rasto. O absurdo maior desta moléstia urbana, é estarem todos os dias a mudar o penso, sem desinfectarem a ferida, não dos elefantes claro mas do dono circo, ou melhor do dono desta savana.
- Esta terra vem de onde?
- Vem dos canteiros madrinha, vem das barocas, vem dos  Kimbos, vem das obras! A chuva está a chegar, vem a lama, a lama é melhor tu não respiras…

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