Luanda também está doente, mas a sua doença é diferente, é
uma cidade feita de antíteses, cheira mal todos os dias, nuns sítios mais do
que noutros. Tem um saneamento básico obsoleto, que vomita para o que resta
dos passeios, que se assemelham à
superfície lunar, mas com crateras cheias de imundice e esgotos estagnados e
correntes. Andar a pé na cidade, só de olhos postos no chão… excepção seja feita
para algumas ruas, reabilitadas por conta da sua frequência vip.
Agora, vejo com outros olhos a cidade, vejo com olhos de
todos os dias, vejo de dentro dela, vejo uma cidade suja e decadente e
simultaneamente, vibrante de reconstrução, e do mesmo modo que me repele,
me atrai, mas não sei porquê, não
consigo perceber porquê!
O ruído de fundo é
permanentemente acima dos decibéis recomendados pela OMS. Parece que a cidade
tem a voz de um louco, rouco de tanto gritar. Leio jornais todos os dias, ontem
um deles denunciava a poluição sonora como sendo um problema de fundo da
cidade. Sendo que as maiores causas identificadas da poluição sonora são os
táxis, que instalam no interior dos veículos, maioritariamente Toyotas Hiace, mais conhecidos pelos Iáces, aparelhagens de
alta potência, competindo uns com os
outros, transformando o som no seu marketing. As festas que ocorrem regularmente
até altas horas da madrugada, em quintais, igrejas e pátios da cidade. Tenho
adormecido às sextas e sábados, com estes sons de África, quais reminiscências
de batuques ancestrais, que me agitam o sono, como um convite divino à entrega
do corpo à sensualidade da dança.
É Cacimbo, o céu está quase sempre cinzento, não chove, toneladas de pó de terra pairam ameaçadoras sobre a cidade, criam um
manto de permanente nevoeiro que se mistura com
emissões de CO2 descontroladamente absurdas. É veneno puro a matar devagarinho, os pulmões, os olhos, a pele, os cabelos.
Vêem-se verdadeiros batalhões, de homens e mulheres a varrer as
ruas da cidade, de máscaras e cabeças tapadas, assemelhando-se a brigadas anti
veneno. São como uma manada de elefantes
a passar na savana, deixam uma densa nuvem de pó no seu rasto. O absurdo maior desta moléstia urbana,
é estarem todos os dias a mudar o penso, sem desinfectarem a ferida, não dos
elefantes claro mas do dono circo, ou melhor do dono desta savana.
- Esta terra vem de onde?
- Vem dos canteiros madrinha, vem das barocas, vem dos Kimbos, vem das obras! A chuva está a chegar, vem a lama, a lama é melhor tu não
respiras…
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