quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Nomes

Teve sorte meu amigo ao ser baptizado na igreja da Lage (circunstâncias coloniais obrigam no registo da população africana) num dia em que o Padre Narciso acordou bem disposto e ainda sem aqueles sarcasmos que lhe tomavam a alma pelo fim da manhã após a terapia das tremideiras, e por dentro da sua cara redonda de pele vermelha perguntava Como te chamas? Eu sou Paulo mesmo. Paulo quê? Não tens nome de família? Não tenho não. Bom hoje está um dia cinzento ficas Paulo Cinzento.
E a bola de carne rosada que representava o Senhor Todo Poderoso do Céu e da Terra e sobretudo da Sacristia, lá se voltava a custo e muito lentamente com os dedos ainda gordurosos da última coisa que tinha acabado de comer, registava numa página do livro misterioso que depois era fotocopiado solenemente e solicitada com emoção pela família. Nomes extravagantes como Domingos Sabonete, Lúcia OMO, Luís Canivete e tantos outros, vários como aos humores passageiros do Padre.
Talvez porque na véspera por obra bendita do Espírito Santo, tinham-lhe oferecido um excelente vinho vindo do Puto(1) que lhe caiu como um anjo no seu estômago mal acostumado às zurrapas que encontra na Huíla, o meu amigo não se saiu mal, com um Oliveira como prémio na Roda dos Deuses mas estes últimos, por existirem ou não, ao conceberem o Oliveira devem-se ter distraído na parte dos contactos fónicos e o meu amigo saiu um pouco disléxico. 
Preto, disléxico mas Paulo Oliveira.
- Com um nome destes na tropa até podes chegar a cabo!
Um porradão nas costas e um riso desalmado encerravam as festividades. Vai com Deus meu filho.
E o Oliveira foi. Tinha 12 anos e foi trabalhar, servir como se dizia, para casa de uns burgueses que viviam no Bairro da Lage e um dia apareceu lá no largo, no nosso campo de futebol das partidas entre calçados e descalços, pondo-se num canto vendo-nos jogando. Éramos dois contra três. Faltava-nos um para pares. Ê meu queres jogar? Como te chamas?
- Olibela.
Ficou o Olibela da Chela(2) (Oliveira da Serra)

(1) Puto – a metrópole (Portugal)
(2) Chela – Serra da Chela (Lubango)


NA

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