Eu ia lendo as placas das povoações e dando atenção à
estrada e subitamente um acidente horrível acabava de se realizar, éramos nós
os primeiros a chegar; uma carrinha de parte traseira aberta carregada de
trabalhadores rurais fora fuzilada frontalmente por um automóvel de turismo
descontrolado.
O filme era tão horrível que não me deixaram sair do carro.
Partiram os três em corrida para o inferno.
Senti-me inútil e perdido. De longe ouvia os gritos da dor e
os suplícios da consternação. Voltaram com uma menina ao colo com a cara
repleta de vidrinhos espetados na pele que íamos tirando. Outros carros
chegaram. O Bilão era pesado. Do turismo só se salvou a menina, enquanto dos
outros nada sabemos tal era o estado, cuspidos em voo para o mato.
O carro
partiu lentamente e os meus olhos como uma câmara entre os carros destorcidos e
fumegantes seguiam os corpos ensanguentados pelo chão como se de uma batalha se
tivesse tratado.As lágrimas correram-me pela face e então a Laura, ao ver-me
em tal estado, agarrou-me a cabeça e pouso-a no meio dos seus grandes seios
para me reconfortar. E que conforto. Eram rígidos mas fofos ao mesmo tempo
quentes ao ponto de uma fogueira em tormenta me atacar todo o corpo. Por mim ia
assim até Luanda.
No dia seguinte lá fomos logo cedo à ilha para a praia do
Dongo a dar o famoso mergulho.
A Laura nem falava ao ver aquela imensidão à sua frente, só
um sorriso como à lua nos seus dias de esplendor brilhava na sua boca e
despindo o seu vestido azul às flores vermelhas, coberta com uma combinação
porventura herdada nos tempos da missão religiosa, correu pela areia fina e atirou-se
com vigor à água em liberdade. Eu tive também de correr atrás dela para lhe
explicar que sem se saber nadar te podes afogar. Dois novos termos no seu
vocabulário.
Sentei-me na areia a vê-la a ir e a vir como aos teus
golfinhos, a brincar com as ondas do mar, deitar-se e cobrir o corpo de areia
como um croquete e depois partir, uma e outra vez em corrida, entrar no mar e
chapinhar o corpo colado ao tecido molhado. Quando cansada resolveu sair do
banho e veio sentar-se a meu lado, o meu coração pôs-se a bater de pudor e
timidez. Ela sorvia os pingos que lhe salgavam os lábios grossos caçando-os com
a língua até que interrompeu aquele jogo, passou-me um braço pelos ombros e
falou: mas me diz mesmo Nuno, quem é que deitou tantos baldes de água aqui?
NA
NA