quarta-feira, 25 de abril de 2012

Caras - parte II


Eu ia lendo as placas das povoações e dando atenção à estrada e subitamente um acidente horrível acabava de se realizar, éramos nós os primeiros a chegar; uma carrinha de parte traseira aberta carregada de trabalhadores rurais fora fuzilada frontalmente por um automóvel de turismo descontrolado.
O filme era tão horrível que não me deixaram sair do carro. Partiram os três em corrida para o inferno.
Senti-me inútil e perdido. De longe ouvia os gritos da dor e os suplícios da consternação. Voltaram com uma menina ao colo com a cara repleta de vidrinhos espetados na pele que íamos tirando. Outros carros chegaram. O Bilão era pesado. Do turismo só se salvou a menina, enquanto dos outros nada sabemos tal era o estado, cuspidos em voo para o mato. 
O carro partiu lentamente e os meus olhos como uma câmara entre os carros destorcidos e fumegantes seguiam os corpos ensanguentados pelo chão como se de uma batalha se tivesse tratado.As lágrimas correram-me pela face e então a Laura, ao ver-me em tal estado, agarrou-me a cabeça e pouso-a no meio dos seus grandes seios para me reconfortar. E que conforto. Eram rígidos mas fofos ao mesmo tempo quentes ao ponto de uma fogueira em tormenta me atacar todo o corpo. Por mim ia assim até Luanda.
No dia seguinte lá fomos logo cedo à ilha para a praia do Dongo a dar o famoso mergulho.
A Laura nem falava ao ver aquela imensidão à sua frente, só um sorriso como à lua nos seus dias de esplendor brilhava na sua boca e despindo o seu vestido azul às flores vermelhas, coberta com uma combinação porventura herdada nos tempos da missão religiosa, correu pela areia fina e atirou-se com vigor à água em liberdade. Eu tive também de correr atrás dela para lhe explicar que sem se saber nadar te podes afogar. Dois novos termos no seu vocabulário.
Sentei-me na areia a vê-la a ir e a vir como aos teus golfinhos, a brincar com as ondas do mar, deitar-se e cobrir o corpo de areia como um croquete e depois partir, uma e outra vez em corrida, entrar no mar e chapinhar o corpo colado ao tecido molhado. Quando cansada resolveu sair do banho e veio sentar-se a meu lado, o meu coração pôs-se a bater de pudor e timidez. Ela sorvia os pingos que lhe salgavam os lábios grossos caçando-os com a língua até que interrompeu aquele jogo, passou-me um braço pelos ombros e falou: mas me diz mesmo Nuno, quem é que deitou tantos baldes de água aqui?

NA